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Por Thiago XikotaAtualizado em 6 min de leitura

Ele tirou zero na Fuvest usando palavras que ninguém entende. Seu produto faz a mesma coisa.

O que um vestibulando eliminado ensina sobre a diferença entre complexidade que impressiona e complexidade que comunica.

A Redação Perfeita que Ninguém Entendeu

Um estudante de 18 anos queria entrar no curso de Direito da USP. Na segunda fase da Fuvest 2026, Luis Henrique Etechebere Bessa abriu sua redação com esta frase:

"Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito."

Tirou zero.

O tema era "O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado". O texto passou por três avaliações cegas independentes. Nenhum avaliador encontrou indícios de que o candidato tivesse compreendido ou desenvolvido o tema proposto. A Fuvest foi direta: o texto não abordou a frase temática.

O restante da redação seguia a mesma linha: "hermenêutico-historiográficas", "teleologia hodierna", "comodificação cultural", "Antropo-tecno-ceno". Cada palavra existe no dicionário. Nenhuma ajudou a responder a pergunta sobre perdão.

Luis Henrique processou o reitor da USP. Perdeu a liminar. Publicou a redação nas redes sociais. Virou meme.

Parece um caso isolado de um vestibulando que exagerou no vocabulário. Não é. É o erro mais comum em design de produto. E provavelmente existe uma versão dele na tela que você está desenhando agora.

Eloquência Vazia: Quando o Meio Engole a Mensagem

Existe uma diferença entre complexidade que resolve e complexidade que decora. Luis Henrique tinha vocabulário. Ele sabia o que significava "procela" (tempestade) e "condoreira" (estilo grandioso). Mas acumular palavras raras não é argumentar. É colecionar.

Chamo isso de Eloquência Vazia: quando a sofisticação do meio engole a mensagem. O artefato é tecnicamente denso, mas funcionalmente oco. O emissor está falando consigo mesmo.

Em produto, Eloquência Vazia aparece toda semana:

O modal com três parágrafos de legalese que ninguém lê. O onboarding com sete etapas explicando features que o usuário ainda não precisa. O dashboard com 40 métricas visíveis ao mesmo tempo porque "o usuário pode querer ver qualquer uma delas". O formulário com 14 campos quando o sistema precisa de 3 para completar a ação.

Tudo tecnicamente correto. Tudo funcionalmente inútil.

O Avaliador e o Usuário Têm o Mesmo Trabalho

Os três avaliadores da Fuvest tinham uma tarefa clara: verificar se o candidato compreendeu o tema e construiu um argumento sobre ele. Não estavam ali para admirar vocabulário. Estavam ali para extrair uma resposta.

Agora troque "avaliador" por "usuário" e "redação" por "interface".

O usuário não entra no seu app para admirar o design system. Ele tem um trabalho a fazer. Se a interface não o ajuda a completar esse trabalho, ela falhou. Não importa se os componentes estão impecáveis, se as animações seguem a curva de easing perfeita, se a tipografia respeita a escala modular.

Clayton Christensen chamou isso de Jobs to Be Done: o produto é contratado para realizar uma tarefa. A redação da Fuvest foi "contratada" para demonstrar compreensão do tema. Falhou no job. A interface do seu produto é "contratada" para resolver um problema. Se ela está ocupada demais sendo sofisticada, está falhando no job também.

O Design System Mais Eloquente do Mundo Não Salva uma Tela Sem Propósito

Já vi times inteiros orgulhosos de um design system impecável. Tokens nomeados com precisão, componentes documentados em Storybook, tudo seguindo a nomenclatura BEM ou Atomic Design. E a tela principal do produto? Confusa. O usuário não encontra o botão de ação primária porque ele está competindo com 12 outros elementos, todos desenhados com a mesma perfeição.

A Fuvest não pediu ao candidato que demonstrasse vocabulário. Pediu que ele argumentasse sobre perdão. A redação de Luis Henrique era o equivalente linguístico de uma tela onde cada componente está perfeito e nenhum serve ao objetivo.

A melhor redação esconde o vocabulário atrás do argumento. A melhor interface esconde a arquitetura atrás da ação.

A Síndrome do Portfolio Fantasma

Tenho uma teoria sobre por que designers caem na armadilha da Eloquência Vazia. Chamo de Portfolio Fantasma: a audiência invisível que molda suas decisões sem que você perceba.

O estudante da Fuvest não estava escrevendo para os avaliadores. Estava escrevendo para uma plateia imaginária que admiraria sua erudição. Os avaliadores eram um detalhe. O portfolio mental era o que importava.

Designers fazem o mesmo. Aquele hover state elaborado, aquela microinteração com spring physics de 400ms, aquele gradiente sutil entre dois tons de cinza. Quem percebe? O usuário, que está tentando marcar uma consulta médica? Ou o designer no Dribbble que vai dar like?

Não estou dizendo que craft não importa. Craft importa. Mas craft a serviço de quem?

Pergunte-se: essa decisão de design resolve um problema do usuário ou resolve um problema do meu portfolio?

Se você hesitou, já sabe a resposta.

O Teste de Luis Henrique

Professores de português que analisaram o caso foram unânimes: havia mais preocupação com uma coleção de pensadores e conceitos do que com a construção de um texto que apresenta um posicionamento.

Troque "pensadores e conceitos" por "componentes e features" e você tem a crítica mais comum em qualquer revisão de design.

A partir desse caso, proponho um teste rápido. Três perguntas antes de entregar a próxima tela:

  1. O usuário consegue completar a tarefa principal em menos de 30 segundos na tela mais importante? A Fuvest pedia uma dissertação sobre perdão. Não pedia um inventário enciclopédico de termos filosóficos. Seu produto pede que o usuário faça algo. Não pede que ele admire suas decisões de design.

  2. Se você tirasse metade dos elementos da tela, o usuário perderia algo? Se você tirasse "grandiloquência condoreira" e "tétrica languidez" da redação, o argumento ficaria mais fraco ou mais claro? Em produto, se você remove aquele tooltip, aquele badge, aquele texto de ajuda que ninguém lê, o que muda? Se a resposta é "nada", esses elementos são decoração, não comunicação.

  3. Você está projetando para o usuário ou para o portfolio? O estudante escreveu para impressionar a banca com erudição, não para responder a pergunta. O seu fluxo de checkout, o seu formulário de cadastro, o seu empty state existe para resolver o problema do usuário ou para mostrar que você domina o design system?

O "D" que Luis Henrique Não Apagou

Num artigo anterior, contei como a Toyota cortou uma única letra do nome, de Toyoda para Toyota, porque o "D" era pesado demais para uma marca que queria significar velocidade. Dois tracinhos a menos no Katakana. Uma decisão que separou uma fábrica de teares de uma das maiores empresas do mundo.

Luis Henrique fez o oposto. Onde a Toyota subtraiu para comunicar, ele adicionou para impressionar. Onde a Toyota pensou no receptor (o consumidor global), ele pensou no emissor (ele mesmo). Onde a Toyota projetou a interface do nome para funcionar em escala, ele projetou a interface do texto para funcionar no espelho.

Complexidade sem propósito é ruído.

A Toyota cortou uma única letra do nome para o mundo inteiro entender. O estudante colocou todas as letras que conhecia e ninguém entendeu nada.

Na próxima vez que você estiver desenhando uma tela, pergunte-se: estou escrevendo uma redação que responde à pergunta ou estou colecionando palavras bonitas que só eu entendo?


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